Anohni agita (meio) Coliseu do Porto

Vemos a Naomi Campbell exibir-se no ecrã gigante durante o tempo suficiente para começar a olhar para o relógio. Há quem se pergunte “É esta a primeira música?”… Não, é a intro diluída por uma sonoridade profunda que nos começa a levar para o universo de Anohni. Uma espera longa que terminou num fade para preto, acompanhado por um ruído estridente, mais alto, a rasgar o Coliseu e  a dar lugar a um rosto pintado, soturno e misterioso que surge, no ecrã, com o vermelho e o preto como cores predominantes. Anohni, com luz verde apontada ao manto branco, surge da lateral esquerda e entra em palco num passo vagaroso, a fazer soar os primeiros ditongos desta nova viagem, mais solitária mas não menos imponente. Estreia-se com o seu homónimo, Hopelessness. Numa espécie de triunfo da revolta, os rostos que vão dando cara aos primeiros minutos do concerto, no ecrã gigante, são a mímica das novas canções e dão vida ao rosto de Anohni, tapado por uma rede preta. E se no corpo há inércia e uma figura imponente da cantora, parada, na voz canta-se ao turbilhão dos sentidos e à agitação da revolução. 4 Degrees é a segunda canção e, só com Watch Me, se antevêem os primeiros gestos, braços erguidos, a pedir essa atenção.

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Nesta ode, que explora o mundo e percorre as crises e os preconceitos, temos a esfera pessoal da cantora  projectada do anonimato, para um Coliseu que peca por estar a meio gás. (onde andam essas gentes que esgotam salas e festivais por esse país?) “Paradise”, “Execution” e “Ricochet” seguem-se no alinhamento: será música cantada para a revolta ou a revolução em si? Esta meta-lírica assenta em estruturas esdrúxulas por quem tem nas cordas vocais o dom, na gramática a matéria imperativa para tornar esta estreia inesquecível. Numa sala que enaltece o silêncio, ouve-se Anohni dizer, quase em sussurro “I was so lonely, all alone” enquanto se senta nos degraus e olha para ecrã, onde os olhos da cantora se vêem, nítidos e gigantes. Como se falasse para esse passado tão recente, Anohni introduz-nos “I Don’t Love You Anymore“, uma das canções de Hopelessness mais aclamada pela crítica (ou serão todas elas?).  But it’s a lonely world… e desce majestosamente os degraus, enquanto olha, novamente, para trás, na projecção emotiva dos olhos tristes, canção (quase) feliz… I don’t love you anymore. Sempre à sua maneira da escuridão, escondida por detrás do manto branco, véu preto, Anohni preenche cada recanto com a luz da sua afinação, ecoando entre os graves que arrepiam a epiderme e agudos que preenchem o mais ínfimo de nós. Acompanhada pelas teclas em simétrico, dois músicos exploram a electrónica e dão corpo a este registo da ex-vocalista de Antony and The Johnsons. E é impossível ficar indiferente. Da América para o Coliseu, Obama é cantado na voz profunda e pausada, seguindo-se a fragilidade feroz de Violent Men. 

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Com uma evolução mais pop, Anohni preenche os cânones da contemporaneidade e eleva-se para lá dessa certeza. Passeia no palco, enquanto os rostos se passeiam no ecrã, mostrando raças e idades completamente distintos: canta-se a diferença, numa noite quente de terça-feira, e enaltece-se a heterogeneidade. Anohni deixa o palco pela primeira vez e a esquizofrenia das luzes suspende-se para o negro total, manto da invisibilidade, metáfora à matéria e ao preconceito. Quando a (meia) luz regressa, volta também a cantora e traz com ela Why do You Separate Me From the Earth? A entrada triunfal é acompanhada na mímica dos lábios vermelhos, carnudos, cereja tatuagem, poderosa apoteose dos sentidos. Muitas vezes damos por nós a admirar a silhueta imponente recortada pelo perfil de alguém, no rosto gigante que o ecrã exibe. E este experimentalismo, este refúgio na predominante visual, aguça-nos o paladar musical. Anohni deixa cair o capuz branco e pergunta-nos “What’s your legacy?” prólogo de “Jesus Will Kill You” “Crisis”, duas canções que andam de mão dada com o preconceito e a marginalização, com o mundo actual, feito ao contrário, sustentado numa espiral que a cantora aprofunda e nos faz mergulhar nela. Se da cabeça lhe escorrega esse manto branco, dos olhos projectados, nos rostos quase sempre andrógenos, escorregam lágrimas que se seguram nos lábios. O que nos quer transmitir Anohni? A resposta é óbvia. Toda a mímica que acompanha o concerto é uma espécie de alter-ego da cantora, que nos arrepia com “Indian Girls”, “Marrow” “In my Dreams.” E voltamos ao início de tudo isto, voltam a ser 21h45 no Porto, quando Naomi volta a entrar pelo Coliseu, no grande ecrã, e Anohni assume-se como rosto anónimo, voz de todos. (Afinal) a música serve para transmitir uma mensagem.

A cantora agita os braços, em movimentos perfeitos que acompanham a letra e com take me higher faz a estrofe ser ainda maior, manchada de vermelho e transportando-se para um branco luminoso. E é por esta altura que tem início o presságio de fim do concerto, quando surge o rosto total de Anohni no ecrã. Vemos, pela primeira vez, a imagem da cantora, cujos olhos se vão inundado, embriagados pela letra que a canção adivinha. Deitada nas escadas, como um branco esquecido, Anohni apresenta-se perante a luz baixa, de tons frios e rasga o coliseu com “imagine… imagine… in my dreams...”, um eco que se repete de forma romântica. Chega-nos, finalmente, “Drone Bomb Me” e Anohni levanta-se com as lágrimas de Naomi, dançando subtilmente e devolvendo ao manto preto, o branco do capuz, fechando-se, novamente, nele próprio. Terminado o alinhamento é para o grande ecrã que a acção passa e um rosto moreno, cabelos grisalhos, vagueia por pensamentos, “I’m wondering what’s happening to the world… everything is changed“. Estamos perante uma nostalgia morna, epígrafe ao mundo.

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Hoje é a vez de Lisboa se cobrir deste manto branco feito canção. E de uma escuridão embriagada pela razão e pela comoção. O novo caminho de Anohni, mais pop mas não menos profundo, estreia-se hoje no Coliseu Lisboeta, perante um grande novo caminho de sabor intenso.

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Photo By: Ana Guedes

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