Tempestade com Kate e Melancolia com Future Islands

São mais de 40 em palco e começaram os ensaios há mais de sete meses. Ou há precisamente esse somatório todo de semanas. A Escola de Rock de Parades de Coura vai passando pelos hits que já fizeram vibrar Coura durante as edições anteriores. São do rock e das baterias sincronizadas e mostra ao público que a música não é só para meninos. Agitam os cabelos ao som de Coldplay ou Pixies e não escondem a loucura que é subir ao palco de um dos festivais mais mediáticos do país. É Coura. E deixa espaço para, entre as suas paredes, mostrar que o talento vai desde crianças da vila ao presidente da junta. O fim de tarde é acolhedor à beira rio e abre portas a um presente que traz casamento.

Vêm tocar o George Best e não há melhor. Dizem eles. Ou pelo menos é aquilo que o público considera. Trazem o rock que não sendo sujo traz a debilidade das saudades ao Taboão. Os The Wedding Present conseguem, finalmente, à quarta música, fazer um público vibrar e não há forma de antecipar o rock feito presente, num concerto de memória e nostalgia. O ritmo é quase sempre o mesmo e os anos 90 que aqui se antecipam são a verbalização de uma década de viragem do rock e uma nova abordagem a esta esfera.

Não obstante à história, continuam a ser impermeáveis ao tempo. São Mão Morta mas voz viva. E mais firma do que nunca. E são um mundo inteiro de canções: prova disso é o alinhamento que percorre o globo, de Paris a Istambul. O mutante, um dos trabalhos mais importantes da banda da qual Adolfo é Canibal, faz luxúria neste alinhamento rico. Fazem um pequeno desvio, dizem eles, mas é estrada para enriquecer mais ainda o concerto. Vemos os primeiros moches de Coura e a poesia de Adolfo é uma linha inteira de talento que se escreve nesta vigésima quinta edição. E por falar em celebração, há um parabéns a você, entoado pelo público inteiro, uma concha acústica a dedilhar a emancipação vital. A quase poesia faz-se em declamação giratória e se há pinos na gramática, há rodas nos arranjos musicais. A “velocidade escaldante” é uma estrada na memória que se faz no sentido inverso e relembra-se como o mundo era diferente há 25 anos. “E se há 25 anos nascia o festival de música de Paredes de Coura… a celebração merece aplausos porque 25 anos é uma data memorável.” E é com aplausos sentidos que Coura se despede de Mão Morta.

As luzes são estradas inteiras, rectas, para a electrónica experimental de Beak>. Acompanhado de guitarra e teclas, é na bateria que se traz o protagonismo (Quase) todo. Ou parte do ritmo frenético com que mergulhamos no trio inglês. Vêm de Portishead, Robert Plant e Moon Gangs. Formam-se numa génese de eletrónica que também é rock e se enaltece na voz melódica de Geoff Barrow. Fala-se de Trump e há um “miau” a fazer eco por Coura. São frames inteiros de música experimental que transformam Coura num céu inteiro de descobrimentos. Ou um oceano. Não há forma de não dançar de olhos fechados ao som dos britânicos que chegam com o novo trabalho. Se tocam world music a meio do concerto, ainda há quem se retraia com inércia. Mas compensa-se a forma com a subtileza esdrúxula da canção que se precipita num anfiteatro repleto de para um primeiro dia a mais de meio gás.

São a apoteose da noite. O vocalista faz uma espécie de dança tribal, sincopada num ritmo alucinante. É um guerreiro que não declara armistício porque ali, em cima do palco do Vodafone Paredes de Coura, os Future Islands tomam conta do anfiteatro inteiro. O coração cheio fica só em Coura e não há nada mais, neste momento, para lá das árvores e do espaço entre Paredes. Não há nada mais que possa existir e à segunda música já estamos absorvidos pelos clássicos de Future Islands. Mas é em “Seasons” que a estação se adivinha soalheira. Wellmers, o vocalista, faz do palco um lugar mais pequeno quando o percorre de uma ponta à outra vezes sem conta durante a mesma música. A energia é contagiante e se antes a relva era o anfiteatro para gente sentada, em Future Islands é uma pista de dança de gente a aplaudir de pé. A romaria acaba com uma nuvem de pó que adensa a atmosfera.

Se fosse um filme era “This is England”. Kate Tempest traz a rebelia inglesa para o palco, pela forma como percorre a gramática e transmite diálogos em forma de música. Fala-se de selfies, dos emojis e da geração descartável. O “boa noite” de Kate soa a Brasil mas a música, a revolução. Não é habitual trazer-se este registo a Coura, este hip hop alternativo e experimental que junta o brexit a uma manif em palco, inflamando a poetisa. Fala-se dos Money Man que tapam os olhos à sociedade, das crianças descalças que nada têm e das barbaridades que inundam os media de atrocidades, perpetradas pelo white-collar. “A storm is coming” é verso homónimo ao concerto e metáfora da Kate. Uma surpresa em Coura e um dos concertos do nosso pódio. Um trouble dos bons. Dos aplausos mais caóticos, porque Kate é essa tempestade.

0

Comentários

Comentários

Photo By: Ana Guedes

Leave A Comment

Your email address will not be published.