O epílogo dos Capitão Fausto no Porto

Não sabemos se é pelos dedos das mãos, se pelos quilómetros de estrada que se contam os dias. Sabemos, sim, que a matemática está feita e dá título à canção. Os “Capitão Fausto têm os dias contados” são falácia imperativa ao baptismo do novo álbum e mote para uma Tour pelos teatros. Com a maturidade e a sensatez dos acordes, a banda Lisboeta traz um repertório (quase) inteiro à Sala Suggia da Casa da Música. Na mocidade da voz, o timbre de Tomás acompanha-se na guitarra por Manuel, Domingos no baixo, Francisco nas teclas e as baterias divididas entre o gesso de Salvador e a epopeia principiante de Vasco Magalhães.

Entram pouco depois da hora e é a “Lameira”, do álbum do “tudo ou nada” dos Capitão, “Pesar o Sol”, que dá as boas-vindas ao Porto. “Partir de repente é melhor que se arrastar”, canta Tomás. E os assobios são imediatos, verdade absoluta do aplauso energético que as cadeiras reservam mas o corpo transborda. A dicotomia passa a ser de “Semana em Semana” e, de repente, ouvimos acordes semelhantes a Maxwell Silver Hammer. Sem armas brancas em palco, sentimos a influência dos Beatles com o seu Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band de 67. A atenção que se dá ao enredo percorre o palco, os instrumentos e “Os Dias Contados” dissolvem-se num instrumental rico e desenvolto. Nas estrofes, abrigo de estórias da banda, relembra-se o caminho que começou no Pop Rock e se maturou para esta ideia de que “se eu não crescer, eu vou morrer”. E cresceram. No primor de composições musicais estruturadas e esdrúxulas.

 

Não sabemos se “Mil e quinze” é tão somente a música que se segue, se também é a temperatura da sala. Já há pessoas em pé a dançar de olhos fechados e corpos que se começam a despir, declarando armistício ao calor. Wallenstein acede a esse termómetro e sublinha que “Se eu cair para o lado é por causa da temperatura, não é por outro motivo”. Não há “Maneiras Más” que sustentem estas premissas e a degustação de Super Bock é a vírgula nas canções. O rock e o psicadelismo exploram-se entre estas pausas e o território dos Capitão Fausto é o clichê do Porto, como enaltecimento de lugar, referência do pódio neste que é o último concerto da digressão. E assim se chega ao conjunto de boas conclusões que as maneiras más instauram no “Litoral”.

 

Da plateia, alguém expande a voz para pedir que toquem as “Dunas” mas a praia dos Capitão passa, agora, pelos pratos da bateria, uma guitarra suave e os olhos fechados de Tomás. O ritmo pede que o corpo oscile de forma compassada e breve entre cada nota, para colher “Flores do Mal”. Há assobios do público e uma luz quente com contornos vermelhos, que acabam por domar o amor da plateia e embalar o anfiteatro da Suggia. Quando o palco se enche de luz, Wallenstein tira o casaco e os assobios ecoam, interrompidos pela argumentação: “Se eu continuasse a tirar vocês iam ficar desiludidos”, retorque.

“Fomos comer uma posta mirandesa… estava salgada, por isso é que tenho de beber tanto”, diz Tomás enquanto brinda ao Sol que pesa e que dedilha um instrumental absurdo de duas guitarras, influência mestre dos tempos de George Harrison na Índia. O corpo denso nos acordes estende-se ao “Corazón” e é nessa altura que o concerto deixa de ser de lugares sentados para se desenhar uma plateia inteira a repetir a canção na voz, em pé. O concerto já vai a mais de meio e ainda só se passearam por “Pesar o Sol” de 2014 e “Os Dias Contados” de 2017. É com “Raposa” e “Santa Ana” que se impera a “Gazela”, de 2011, disco de estreia que catapultou os Capitão Fausto para os tops nacionais e os ouvidos afinados da boa música portuguesa. Para ficar.

“Amanhã tou melhor” e “Febre” antecipam a decepção do términos e “Morro na Praia” é a alucinação metaforizada numa inspiração de “Lucy in The Sky With Diamonds”. Se no Porto o mundo corre normal, dentro da Casa da Música assiste-se a um existencialismo transcendental que se estende pelo hipnotismo das cordas e percorre o groove instrumental que carimba o pódio dos Capitão Fausto. Assim, abre-se a dimensão das referências e os Tame Impala também passam pelo palco, mas os nossos (quase) homónimos portugueses são a pronúncia certa para uma noite quente de sábado e sobrepõe-se a esse predicado.

O compasso de espera do encore dura pouco tempo e interrompe-se com a evidência do feito. Em noite de dérbi, “Alvalade chama por mim” empata no duelo de canções: público e banda ficam equiparados no ouvido e na satisfação. “Tem de Ser” é o “compromisso a render” que torna evidente a última canção desta Tour. Se no limite dessa verdade “eu faço só o que vim cá fazer”, acreditamos que há uma casa da música inteira a render-se aos Capitão, habitantes desse espectro musical cada vez mais elaborado e maduro. Sem pontas soltas, a viagem a bordo é inteira, para se confirmar a genialidade dos lisboetas. Porque com “Música Fria” nunca se canta a história da separação. E com eles, só se quer continuidade crescente, negando a falácia de que “para estragar o disco, tenham-me a mim”.

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