Cock Robin no Coliseu do Proto

Cock Robin sobem ao palco pouco depois da hora prevista e o Porto assiste a um concerto que começa de forma branda, com “Down to you“. Com uma progressão ascendente, “When Your Heart is Weak” devolve ao coliseu a voz de Peter e à saudade o lugar certo: há uma apoteose quente que agita os corações e dá a “Janice” o papel de continuar a embalar o peito. O público aguarda ansiosamente pelos êxitos, pela nostalgia e por uma energia que ainda não se sentiu, em palco. Peter conduz os anos 80 de forma prudente, cauteloso e envergonhado, ainda, até se precipitar para “Straighter Line” e “Portrait“,  passadeira vermelha para “Romance Holiday“. E se é para tirar férias que se parem os instrumentos e se comece o tão aguardado discurso com palavras em português. É Coralie que faz as honras e diz “Porto Dois Zero”. Arranha um português quase perfeito e é com ele que o público delira nesta agitação gramatical a soar a casa (e a dar vitória ao FCP). Se esta nova voz dos Cock Robin, depois de Anna LaCazio ter abandonado a banda há dois anos, traz uma nova liberdade a uma das mais famosas bandas dos 80, são os “Bells of Feedom” que fazem uma levantar alguns telemóveis para se guardar o momento (e partilhar, imediatamente, no facebook, com uma mão a agarrar o telemóvel e o outra, com o dedo indicador esticado, a seleccionar o melhor filtro). Sem filtros, ouve-se Peter falar pela primeira vez e confessar que, em 1895, achava que aquela não era uma boa canção. O público desmente. Coralie completa a música com backvocals enquanto a bateria enche o coliseu e deixa a banda americana tocar toda a atmosfera. As teclas soam aos 80s dançantes e as luzes descem à mesma velocidade com que se ouvem os pratos de choque em fade.

Às escuras, o Coliseu abre-se num vôo de andorinhas projectado no ecrã. Sem guitarras nem baixo, são as teclas que implodem o Porto.”Freedom” continua depois do hiato destes sinos que coabitam com um ritmo quente, melodia pop de ditongos fáceis, directos ao coração. Peter pega na guitarra e, da plateia, ouve-se “Isso devia ter sido no início”. A mensagem não chega ao destino mas ele ri-se na mesma e, cordial, prossegue para uma história do filho: “My son has developed a taste for Porto… and I had to get something from that… Well, I found it… just around the corner”. E o Mr.Kingsbery não precisa de dizer mais porque o mote para um dos maiores sucessos da banda está dado. “Just Around the Corner” é aplauso general nesta marcha que aceita as ordens do alinhamento e se assemelha a uma tropa sincronizada. Como as botas que são compasso da marcha e assentam, iguais, no chão, também as palmas são feitas dessa ordem perfeita, sincronismo ideal para este hino que fez dela uma das mais tocadas dos anos 80. Com as botas de ponta afiada a indicarem o norte, também no Porto os pés apontam para a frente, direcção certa para o tão aguardado hit. O tecto do Coliseu é uma autoestrada para onde a guitarra aponta e os braços de Peter são abraço a esse instrumento, enquanto as notas viajam ao ritmo alucinante da melodia, nostalgia feita canção. Pela primeira vez as pessoas levantam-se para aplaudir uma canção mas, mordomias da plateia, não é permitido permanecer em pé. Como é que se diz aos jovens adultos dos 80s, agora mais velhos e se calhar já com filhos, já com netos, que não podem recordar as camisas às bolinhas com que dançaram isto há 30 anos, sob os corpos levantados e debruçados sobre os pop? “Cowards Courage” é directa na letra e pede para “carry this for your own protection”. Se a rua aqui é de sentido único, a protecção que se tem é o escudo da nostalgia para guiar ao presente, com “Chinese driver“, metáfora aos quilómetros que muitos fizeram para estar no Porto, nesta noite de Março.

Embora Cock Robin tenham vindo a apostar em novas músicas, a nostalgia que o público sente também se estende a Peter. Arriscamo-nos a pensar que “voltar ao sítio que te fez feliz” é negação breve e damos razão ao ditado. Peter apresenta os Cock Robin: “This is our formation now, my friend Anna finished touring…” e as reticências aqui usadas são o silêncio que antecedeu a apresentação da nova voz feminina: “Coralie is my fire red head. And she brought this guy, at the drums”. Se Coralie é fire red e cumpre na voz a perfeição dos agudos, confirmamos que o sangue novo é necessário, mas insuficiente. It’s about the state of the world I guess, acrescenta-se, sobre esta canção. O Coliseu preenche-se de vermelho quando o ecrã se inunda desta tinta que absorve a letra… E quem quiser pode fazer uma espécie de karaoke. Se para muitos a canção é enigma, os caracteres chineses do vídeo acompanham a tendência do desconhecido. O palco é simulação para o universo de estrelas cadentes que nos guiam ao discurso do vocalista. Um Coliseu fechado sobre a luz directa nas teclas e voltamos a uma nova história: “Yesterday we played in Lisbon and we have fun… Almost as fun as this… You are doing well Porto. I’m going to play this song… I was surprised because I think nobody knew it”… Ironia de Peter, prelúdio a uma das baladas que provavelmente mais rostos molhou nas matinés dos 80s. Coralie acompanha este poema cantado e “Only the Very Best” silencia um coliseu inteiro, o porto interno submergido na canção. I won’t leave you. O vocalista de Cock Robin perdeu a vergonha e agora intervala cada canção com uma história falada. Down to memory lane… A bem da verdade. Confessa-nos que a canção fala sobre os tempos em que eram famosos e nem sabiam exactamente o que se passava. A forma como viaja nesta máquina do tempo é um “Quickstand” ao resgate da estafeta, que atravessa o oceano e é entregue a “Caught in Your Stream“, antecedida por uma escuridão e um burburinho em palco. A plateia volta a marcar o ritmo e as palmas são a extensão da memória, do coração e da certeza que mora na ansiedade o desejo de que a noite não termine.

Peter entrega a Coralie Vuillemin a responsabilidade de uma canção inteira e também nela se abraça o rock agitado, interventivo, registo que se distancia do famoso pop dos Cock Robin. Mas se se reinventam e querem salvar a música, o refrão seguinte afirma que “I don’t want to save the world“. E se os olhos atentos assistem à emancipação da canção mas ao desmoronamento do mundo , faz-se do mote estrofe, com “Worlds Apart“. O bombo encarna a personagem principal neste planeta habitado por um sintetizador que o acompanha na aventura da sobrevivência. “Though You Were On My Side” é a sobremesa que se serve para quem não apreciou a refeição principal mas a completou, por educação. Afinal, o prato final é plural, porque não se falham promessas: “The Promise You Made” vale aos ansiosos a adrenalina de saberem a letra de uma ponta à outra, e de satisfazerem o paladar de forma total. Os Cock Robin voltaram depois da pausa. Depois de se reinventarem como banda. Depois de sobreviverem ao estrelato e de voltarem aos palcos, com novas caras. Mas quando se abranda a corrida , tornar à pista é ordem para uma marcha mais lenta. E, embora o coliseu estivesse preenchido, a ausência de Anna LaCazio é evidente. Isto, porque nenhum concerto pede uma plateia tão quieta como num filme de cinema, quando a música exige ritmo e ombros inquietos ou desconcertados com os refrãos. Ou o público foi amorfo ou esta viagem de regresso foi agri-doce.

 

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