D.A.M.A no Coliseu do Porto

Chegam num cronómetro decrescente e o furor começa com uma contagem de 59 segundos que já merece um coro estridente a atrapalhar a matemática. Os músicos entram numa marcha instrumental e “como a vida é para sentir tudo aquilo que ela dá”, “Sinto” é o ritmo que engrandece o Porto numa recepção calorosa, entre lágrimas e alguns desmaios.

Os D.A.M.A. pedem “Calma” e depois da segunda canção rumam até “Luísa”, “Quer” e “Eu Sei”. Com uma pauta musical simples antevê-se a rima seguinte, a forma como o pé bate na próxima estrofe. Não é difícil percepcionar a composição e por isso as músicas ficam tanto na cabeça e são tão fáceis de acompanhar. A equação “Não dá” para menos que um mar de telemóveis no ar, de braços a rasgar o Coliseu e a edificar faróis com as luzes dos dispositivos. No mar calmo, essas formas de luz aclaram a mente aos amigos e não há vozes que prometem chegar inteiras ao fim da noite. “Vamos sentar-nos um bocadinho?” E o Pedro cumpre o favor de iluminar a sala, depois do pedido de transformar o palco na sala de ensaios. O Coliseu torna-se nesse lugar intimista, o sítio especial que agora se partilha  com o público, multidão essa que para o tiro é família. Ouve-se um rewind e acende-se um candeeiro em 3D no contra luz da banda sentada. Toca-se o coração na imagem e na forma: “sejam muito bem vindos a nossa sala de ensaios… Nem sempre está arrumada como está aqui.” E a tour intimista devolve ao Coliseu a promessa das lágrimas que se derramam nas letras decoradas de trás para a frente.

A parte acústica do concerto começa com “Agora já é tarde”. A sala, agora mais fria, evita os desmaios mas ainda há mães que olham pelas filhas e agitam as mãos para as refrescarem. Dançam os novos enquanto fecham os olhos e sorriem os progenitores, que os trazem e lhes dão a Páscoa em presente antecipado. Recebem-se os “Miúdos”, homónimos no público e no ecrã, que recorda, em loop, a infância da banda com imagens inéditas. “Os teus olhos, os teus olhares”, são um coro “quando as miúdas são tão mulheres.” Não eram miúdos para sempre, mas nesta noite no Coliseu existe uma promessa qualquer de eternidade: quer de quem veio do sul para os ver, quer dos que se estrearam nestas andanças dos concertos a 8 de Abril.

São 9 em palco e fala-se de música portuguesa. Nessa tertúlia abre-se espaço para gritos, contrários ao “Susurro”. A luz baixa e a voz deixa ver Mia Rose e o microfone podia suavizar a estridência com que a convidada acompanha a banda. Este, que devia ser um momento especial da noite, faz erguer algumas mãos que tapam os ouvidos. Mas, ainda assim, abre-se a cumplicidade, sentada de forma relaxada nos degraus do palco e é uma espécie de serenata de fim de uma noite de verão. “Era uma vez” é o concerto feito tour e “Às vezes” tem de se ouvir a música de outra forma. “Miguel, fazeis o obséquio?” E a interrogação dá lugar a uma espécie de encenação da descoberta: de quando se sente e descobre o groove. De quando se exploram os instrumentos. “Agora, a banda toda”. E começa o contra luz de dedos esticados, sufocados um contra o outro a formar um triângulo. Se se dizem do improviso, os D.A.M.A. são a coordenação do pop, do português e da gramática simples, que prende alguns espectadores e deixa outros irrequietos, até descobrirem que dá para jogar às escondidas atrás das cortinas da sala.

“Tempo para quê?” é um mergulho na paleta dos vermelhos, na luz suspensa e na nostalgia. Um ritmo de hip hop emerge e rasga o palco em focos azuis oblíquos. As cores são dinâmicas e a atitude uma descoberta. Miguel é um ninja dos saltos e a fita na cabeça baptiza-o no flow. O tempo é azul e entre as estrofes dá para gritar pelo “porto” e não há peito feito no coliseu que não é encha para devolver a cidade em eco.  Antes de “Na na na” abre-se a ficha técnica para gritar pelo Porto, Portugal e pelos personagens de palco. O som peca pela forma como chega a alguns lugares do coliseu é não deixa acompanhar a letra. Uma boca de mulher instala-se no ecrã e a língua faz-se passear pela simplicidade da gramática e de um sorriso em contra luz. Cada elemento é um statement e a guitarra à tiracolo é uma espécie de explorador musical que percorre os trilhos pensados do espaço, organizados do alinhamento. As teclas entram numa espiral dos anos 80 e são mais altas que todos os outros instrumentos.

“Não faço questão” inaugura com um ecrã dedicado a cidade do Porto. Gabriel é pensador mas também é o maestro desta composição vencedora de tops e vendas. Percorre-se a letra e acompanhamos o músico convidado e a sua bicicleta nas ruas estreitas do Porto. “Não vivas em vão” é estrofe transformada em leme e mesmo que não se faça questão evoca-se o ritmo para dar à noite a magia destes rapazes. O Douro deixa um coliseu inteiro mergulhar na sua paisagem e mesmo quando o barco rasga, no ecrã, essa corrente, o público coordena-se para os aplausos. Sentam-se debaixo da luz baixa e sincera a iluminar o discurso. Falam do Porto (outra vez) e do facto de ser uma noite especial: “Vamos lá tocar uma música que nunca tocamos ao vivo… O que é que tu sabes?” Quero mais de ti, canta o trio e pede o público que os acompanhe. Mas se olharmos com atenção à volta, já há filhos a fazer birras e pais a contornar o repúdio da impaciência. Outros, dançam debaixo dos focos das lanternas dos telemóveis apontadas ao “live” do Facebook. Agitam o cabelo nos refrões e esticam-se para chegar à barreira visual que os deixa em contacto com a banda.


O encore não deixa espaço para o habitual “só mais uma” porque os D.A.M.A. continuam em palco. “Era eu” é a luz dos olhos de quem teve mais paciência para entrar, porque Cristovinho desce de palco e fica mais próximo do público. “Parecemos umas crianças felizes. É aquilo que vocês nos fazem sentir malta”. diz, enquanto salta e abraça a banda, mote para a “Balada do desajeitado”: apoteose na forma e na concorrência das vozes que se erguem para acompanhar. Uma menina com não mais que 7 anos sobe ao palco e toma conta da letra. As guitarras saem da zona de orquestra e tomam a frontline num ritmo feito modinha. E depois da pequena cantar com eles, depois de uma noite inteira de euforia, o trio agradece: “Não há palavras, foram incríveis Porto”. De facto, o Porto rendeu-se aos D.A.M.A. É bom ver que há salas a encher com música portuguesa. Menor, é saber que exploram tão pouco a música em si. E a pequena que cantou em palco e que se apresentou como sendo a Mariana, amanhã vai querer ser cantora.

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