Dengaz promove o “Tamo Juntos” no Coliseu do Porto

Dizem que a família deve andar sempre junta. E que deve celebrar em momentos especiais. Por isso, Dengaz e a Ahya Band chegaram juntos ao Porto, para subir, pela primeira vez, ao palco do Coliseu. Trazem ao norte, berço do melhor hip-hop que se tem feito, o género da capital. Não é o que ouvimos nos finais dos anos 90/início de 2000 e afasta-se ligeiramente das novas produções do norte. Mas é esdrúxulo e a conquista é evidente. A começar com uma intro instrumental, distinguimos o boné de Dengaz através da cortina e a espiral de quadrados oscilantes leva-nos a distinguir os contornos de cada microfone e de cada membro da banda. É como uma espécie de túnel que nos encaminha para o serão. “De onde eu vim” é o início desta apoteose de sexta-feira e diz-nos que “as relações valem mais que contas”. Se isso for verdade, toda a impaciência pela meia hora de atraso deixa de ser considerada pelo público. E, aparentemente, é. Com um palco avançado e um contacto uniforme e extenso com os fãs, nas costas de Dengaz é legível o mote da noite: “Entrar, partir esta merda toda e sair feliz”. No Porto, sem papas na língua, recebe-se “Tamo juntos” com a euforia do calão do norte e os braços erguem-se para mostrar os cartazes referentes à canção… ou ao lema. E se é para dominar o mundo, o Coliseu está mesmo junto.

Do calor do verbo a ser canção, passamos para o lado de dentro e “Música com Alma” abranda a euforia porque “não é pelas palmas, é pelos brothers”. Ainda sem os convidados em palco mas já sem casaco, a noite no Porto promete verão em palco. Já a música, promete “Pé na pista e bang!”  Com esta explosão entra em palco o primeiro brother da noite. Matay junta-se a Luís, para “Tuda Muda”, um dos singles mais conhecidos de Dengaz. Canta-se à conquista, ao sucesso e elimina-se o instagram, o facebook e o snapchat: mas só na letra. Ali, há um Coliseu inteiro de braço no ar, esticado, a sustentar o telefone e a levar uma sala para lá das suas portas, para lá do Porto inteiro. As canções, presume-se, devem estar a chegar a quem, em casa ou com os amigos, acompanha nas redes sociais, o “live” do concerto e uns “snaps” do palco. “Amor sem respeito não há, só vais ter aquilo que dás” é a legenda para essas publicações e o hashtag para coroar as excitações. “Rainha” segue-se no alinhamento e provoca a euforia das vozes femininas, nos gritos agudos que chegam em demasia ao ouvidos. Dengaz é cavalheiro na atitude e na canção, demonstração afectuosa para as mulheres da vida de quem as tem, e merece.

O segundo convidado é Plutónio. Atravessa a passadeira e o centro do Coliseu aplaude para receber, debaixo das luzes côncavas do tecto, “O que é que tem?”. No piano há um padrão suave que indicia um dueto emocional. Aquecida a pista, a porta abre-se para mais um convidado e comprova-se que é um dos momentos mais aguardados da noite. Richie Campbell canta “From the Heart” e Dengaz acompanha-o, enaltecendo que foi o primeiro artista com quem partilhou um palco, no passado. A história faz-se destes sucessos e é importante falar deles, como a pausa para respirar entre o diálogo, como uma vírgula num discurso. “Eu consigo” é a certeza da conquista daqueles que, até agora, ainda estavam cépticos. Agir entra em palco não para uma, mas para duas canções partilhadas. “Encontrei” é a segunda e já há braços estendidos a distâncias que até então pareciam impossíveis, para entregar cartas de amor, quiçá, a Agir. Ele recebe-as e sorri, como quando abraça Dengaz e confirma que a música também gera laços, sustenta famílias de artistas.

“Homem sem alma” começa e é imediatamente interrompido quando Dengaz diz que estamos no Porto, é para começar ainda mais em grande. É impossível ficar indiferente à acção, que se estende para esse interior de Homem que reconhece a invicta como essa extensão do coração, cidade que nos apraz. E a Luís, também. A decadência da canção é inversa à euforia do público e nem parece uma letra a desanimar o mood da noite. Seu Jorge não está lá mas “Para sempre” chega em forma de abraço, na voz quente feita envolvência dos sentidos. Os corpos, abrigados neste carinho de estrofes, sentam Dengaz num sofá e, de olhos fechados, canta tanto quanto as sente. Ou assim entendemos nós. Se deixa ao “people” do porto a ideia de que é um carinhoso, afectuoso e romântico, chama Tatanka (vocalista dos Black Mamba) para confirmar que também é um “Super-Homem”. Os dois, numa cumplicidade evidente, devolvem ao hip-hop um registo quente e uma bateria suave, que junta a guitarra de Pedro aos acordes de um melodrama sobre a luta.

“Keep on Fighting” é ordem no alinhamento, que traz Di Noise para o braço do sofá. De olhos fechados, ela e Dengaz estão “Em Casa”, onde as divisões são um espectro entre o inglês e o português, refugiado entre o “fire and the rain”. O agasalho da voz de Di Noise, coerente e afinado, alberga a Ahya family e o público é a vizinhança desse lar quente. Depois dos aplausos, o alentejano mais famoso de Portugal aparece no ecrã a pedir desculpas por não estar presente e já se sabe o que se segue no alinhamento. “Nada errado” é inverso à ausência de António Zambujo, mas um concerto noutra cidade acabou por impeli-lo de fazer parte deste grupo de convidados de luxo. As patricinhas são chamadas à esfera pública por acordarem ao lado destes corações desalinhados. A cada canção, a set-list é transformada em comboio regional: há múltiplas paragens que servem para explicar a letra, porque no hip-hop existe a vida e as experiências pessoais de forma esdrúxula.


Nesta declaração de amor abre-se a viagem para pedir “só mais uma”. E nós já sabemos que a dose vai ser dupla. “Dizer que não” é a forma mais segura de terminar a noite no Coliseu, hit que atravessa as estações de rádio, as cidades e as fronteiras de Portugal. Assiste-se a uma chuva de papéis coloridos, ainda enquanto Matay acompanha Dengaz neste dizer que não que é um sim, um obrigada ao Porto, um coração cheio depois da primeira das duas noites nos Coliseus portugueses. “Tamo juntos” é emancipação do espectáculo e a confirmação de que a legião de fãs, ainda que não tenha esgotado o Coliseu, confirmou a devoção. “Venha o que vier, a nossa história não acaba aqui” é uma das muitas estrofes que o público sabe de cor, mesmo quando o hip-hop acelera, mesmo quando as palavras quase se atropelam. No Porto, ouvimos as vozes (mais ou menos) afinadas a serem acompanhamento certo de todas as letras. Ouvimos o público, que começa nos 7 ou 8 anos e termina nos 60s, a querer mais, a agradecer a noite, a escolha do concerto e o valor do bilhete.

Fotografia/Texto: Ana Guedes

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