NOS Primavera Sound – O arranque

Começou de forma ligeira o NOS Primavera Sound. Exuberante nas formas, exibiu-se com o semblante ainda mais aprumado e os primeiros passos no recinto foram a confirmação de que não há detalhes a falhar. Que a organização promete e promove o melhor que se faz nos festivais em Portugal. E, para manter esse lugar no pódio, inaugura-se a 6ª edição do NOS Primavera Sound em grande.

Com Samuel Úria ouvem-se os primeiros decibéis de música numa carga que todos os ombros suportam. Com álbum novo e um “tom dela” ajustado à ocasião, pergunta qual é o concerto favorito até agora. O público sorri e a ironia contagia o caixão que se arrasta num dos slows mais sedutores da música portuguesa actual. Passamos para um “Lenço Enxuto” onde se sente a falta do habitual convidado Manel Cruz, mas onde se explora esse momento íntimo que percorre a linha de baixo e os olhos fechados dos acordes melódicos de Úria. “O Grande Medo do Pequeno Mundo” é devolvido ao anfiteatro natural do Parque da Cidade, onde se emprestam os olhos uma vez ou muitas. E a música empresta-se também aos ouvidos, que recebem este primeiro concerto num fim de tarde que é prelúdio ao concerto seguinte. Não sem antes se chamar Amália à versão Portuguesa de “Molly’s Lips” dos Vaselines e se trazer a diva à canção.

Do palco Super Bock passamos ao palco NOS, esse pódio da música que lhe vale a alcunha de ser o principal. Cigarettes After Sex inauguram o palco NOS em véspera de lançamento do EP, notícia recebida pelo público em êxtase (talvez o momento de maior euforia durante a actuação dos Texanos. Para desilusão de muitos – não fossem as críticas negativas à produção pela escolha do horário para este concerto – a banda tocou ao fim de tarde, quando ainda muitos se encaminhavam para o recinto. E talvez esta tranquilidade feita música não tenha feito todos averbar “Each Time You Fall in Love”, canção sobre estar bêbedo e apaixonado. E se a embriaguez dos sentidos se atesta perante esta condição duo, o coração entra nessa corrida com “Sunsetz”, “Keep on Loving You” e “Affection”. Para fechar, “Appocalypse” é antónimo ao concerto que encerra agora o Palco NOS.

Chegam com “Enemies” e declaram tréguas ao mau tempo que parecia ter chegado mas se dissipou e anteviu uma noite serena a norte. Rodrigo Leão e Scott Matthew tomam agora conta do palco Super Bock e há um burburinho no público sobre quem é quem. Tiram-se as teimas com as apresentações e segue-se um alinhamento rico que culmina com os gestos sôfregos e o sorriso humilde de Scott. Depois de um primeiro disco que os levou a fazer salas por portugal inteiro, segue-se um segundo que é agora revisitado no NOS Primavera, com temas como “The Fallen”, “Abandoned”, “Smile” e “Nothing is Wrong” . E se estava por perto, o artista seguinte do alinhamento de certo ouviu a chamada com “I Wanna Dance”.

Miguel chega com os únicos raios de sol do dia e se há forma mais certa de dar alegria ao substantivo, então o espectáculo está completo. Trata o mundo do espectáculo por tu e mesmo antes de entrar em palco deixa antever essa realidade com o cenário minucioso que exibe. Vem de Los Angeles para o Porto e não poupa elogios ao Porto. Nem à música. Devolve ao público a ânsia por um concerto dançante e convida, assim, a inércia a retirar-se. O R&B é absoluto e aglutina à mistura o pop de forma rítmica e melódica. Nas letras a equação dessa mais valia é evidente e é com “Going to Hell” que se aproxima, pela primeira vez, do público Português. Não lhe falta a dança, os gestos, o olhar directo e esdrúxulo. Por isso, a música corre-lhe nas veias e estende-se pelos braços, feitos auto-estrada que permite que os corpos se agitem e confirmem a genialidade do norte-americano. “Sure Thing” é das mais cantadas mas a dança faz-se no resto do alinhamento: “Drugs”, “Hollywood Dreams”, “Drinks ou “Candles” são “Waves” nesta forma de ingressar na maré dançante. E está feito o primeiro grande concerto da noite, com harmonias de calor da Califórnia.

Do outro lado do Oceano para o nosso continente, chegam da Escócia e trazem um rock psicadélico que seduz a bateria para ritmos dançantes. Os Arab Strap levam ao palco Super Bock a verdade da música falada e a velocidade recordista de cerveja ingerida em palco. Há intervalos de voz doce e de teclas alucinadas que acompanham o cair da noite no Parque da Cidade. O ritmo a que os concertos estão a dar a introdução aos festivaleiros não podia ser mais certo e, no Primavera, a estrada faz-se destes apeadeiros que vão dando ao corpo a dança, ao ouvido a fórmula para não parar. O duo escocês, que foi um das últimas confirmações depois de ter sido o nome sugerido para substituir os Granddaddy (cuja ausência se deveu à morte do membro fundador da banda, em Maio) confirma o peso dessa ausência e presenteia o público com aquilo a que o festival habitou: a música alternativa e a descoberta. Nada falhou.

Pela segunda vez no festival os Run the Jewels movem a multidão toda para o anfiteatro do Palco NOS. Um dos nomes de peso do festival, a banda conseguiu que o nicho que os viu em 2015 se tenha alargado para um plateia inteira, um festival completo, para os ver. E não ficar indiferente. O hip hop que se diz político e activista, estende-se das letras ao discurso que levam ao palco: falam das violações, dos direitos das mulheres e de cidadania. Lembra-nos a integridade e alertam-nos para o sentido de consicência. E não há nada mais aceso que essa certeza, a par da forma imersiva como nos transportam para este universo em que os direitos estão acima de tudo e são a base do nosso eu. A intervenção feita canção espreitou o novo trabalho do duo e ainda deu para partilhar com o público o desejo de serem cidadãos do Porto: e assim se rende uma plateia. “Legend Has It” é homónima a este concerto que vai para o pódio dos melhores do NOS Primavera Sound. A energia de Killer Mike e El-P é evidente e incontornável. Não havia palco melhor para a dupla de amigos.

Steven Ellison, mais conhecido por Flying Lotus é a abreviatura da música electrónica que o NOS Primavera Sound tão bem promove e explora. Por detrás de uma instalação visual, o DJ apresenta-se entre as silhuetas das formas e dá expressão à música através de contornos e formas que se expandem e progridem durante o alinhamento para um espectáculo inteiro. A tela torna-se translúcida em alguns momentos que deixam antever Steven e a promessa de que tudo nele é experimental: até a forma como explora a música e o caminho por onde leva o concerto – é o próprio a confessar isso. As referências que traz para palco exploram várias correntes musicais e só a forma como as mistura permite antever que há estória a ser feita em pleno parque da cidade. E psicadelismo explorado em forma de todos os géneros que fazem a música caber no Porto.

Os tão aguardados Justice sobem ao palco principal para um das melhores interpretações de electrónica esperadas. “Safe and Sound” e “D.A.N.C.E” saltaram a introdução da história para o clímax do espectáculo. E continuaram para “Phantom” e “Genesis”. E tudo o que se seguiu foram explosões de jogos de luzes que acompanharam a música, ou o contrário. O duo francês devolve ao NOS Primavera a sua fórmula: trazer as memórias de há 10 anos atrás. Em todas as edições a produção faz questão de nos avivar a memória e devolver o passado em forma de canções: e de histórias, marcadas por esses ritmos. Neste caso, com Justice, viajamos atrás no tempo e aos primórdios exploratórios da música electrónica, dos primeiros beats que ouvimos e da forma como o ouvido se começou a habituar ao conteúdo. No entanto, foi por isso que pecaram: pela forma como se prenderam à história e não se actualizaram. Talvez porque resulta, carimbem essa receita. E por isso o conteúdo mantém-se fiel aos formalismos do duo: não deixam de ser a banda incrível à qual nos habituaram ao encurtar a distância aos Daft Punk e a lembrar a forma como se fecham os olhos enquanto se está perante Xavier e Gaspard.

 

 

 

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