NOS Primavera Sound – O último a ser primeiro

Núria Graham chega de vestido de ganga e pernas fininhas. Tem 20 anos e a pequenez do aspecto revolve-se quando começa a cantar. Tem uma voz delicada mas um projecção brutal. De espanha, chega nessa pujança de talento em ascenção e de “Bird Eyes” que permitem uma panorâmica geral de uma carreira em crescimento. O ar doce contraria as tentativas rockabily de algumas canções e é com a cover de “Toxic”, da Britney Spears, que deixa claro o talento para a música.

Evols são vizinhos do festival e apesar de, enquanto banda, serem recentes, a música corre-lhes nas veias há muito tempo. Entre Glockenwise e outras origens, juntam-se no Palco NOS e confirmam que o Super Bock era suficiente – e talvez mais intimista – para o tipo de som que fazem. A lembrar um rock dos anos 70 com ondas de George Harrison soam a descanso de fim de tarde no parque da cidade. E baralham as contas com as horas no palco ponto.
Songhoy Blues sobem ao palco ponto e é mais um dos concertos que levamos até ao pódio sem nos questionarmos sobre o resto do cartaz. Do Mali e da repressão jihadista – dois lugares de onde fugiram – a música – o ponto final (ou de partida) para lembrar e não permitir esquecer, o lugar de refúgio. Mas não se pense que há desânimo na voz ou no corpo, muito pelo contrário. O desert punk que trazem aglutina-se aos blues numa mistura explosiva e dançante. E quem dá o mote é Garba Touré, vocalista da banda – e bailarino nos tempos livres (ou inteiros!) Entre as músicas há espaço para lembrar a cor, as raças e a forma como a música serve como protesto, ou como revolução. Pedem para olharmos para o lado, para esquecer a cor da pele, as origens. E têm razão. Os aplausos são o melhor tapete vermelho que recebem e a forma como contagiam o público com “Music in Exile” vale a passagem pelo Primavera. E carimba a sua intimidade dançável com uma mensagem para perpetuar.
Se há nome incontornável deste festival é a brasileira que chegou de mansinho, no ano passado a Portugal, e ficou, sendo nome recorrente de salas de espectáculos. Elza Soares aterra no Primavera sem que a inibição dos gestos e dos movimentos expansivos lhe atrapalhe a actuação e a presença. Sentada num trono que é metáfora a tentáculos que se estendem pela sociedade, Elza traz a luta consigo – na expressão e na voz. As canções são a história dela e é com “A Mulher do fim do Mundo” que nos convida a entrar nesse mundo – de violência, de racismo, de assassinato e descriminação. O luto não permite que a energia se dissipe e transforma-se em antónimo neste fim de tarde. “A carne mais barata do mercado é a carne negra” e “Você vai-se arrepender de levantar a mão para mim” são a biografia cantada de Elza que comove e arrepia, e outros faz dançar. Não é samba, é repressão. A canção transforma-se na luta e é maior que as origens da música. Ficamos sem fôlego.
Wand são o rock sujo nas pausas sincopadas a dar fôlego ao corpo. O fuzz com que erguem as guitarras desdobra-se em inspirações e Ty Segall é evidente na referência. Por isso o rock é mexido e psicadélico. E o último trabalho dos músicos de Los Angeles é a confirmação da sua maturidade.
Já passaram por Portugal e agora recebem a chave de ouro dos festivais. Os The Growlers sobem ao palco principal do Primavera Sound e não há festival mais adequado para os americanos. “City Club” é o álbum que trazem não só no alinhamento como também na roupa. Com uma espécie de uniformes, soam a uma máfia qualquer. Mas esta tem na música o contrabando e na forma despreocupada a actuação. Do trabalho recente, passeiam-se também por Chinese Fountain, o álbum de assunção em terras lusas.
Do psicadelismo passamos para o rock de Shellac e para a velha-guarda do género. A bisar a presença no NOS Primavera Sound, a banda de Steve Albini enche o palco com o trabalho mais recente e a Tour, que passa por Portugal, afigura-se como uma das mais carismáticas dos últimos tempos. Não se importam com as fotografias e até pedem aos fotógrafos que fiquem no fosso para continuar o trabalho. Há que registar estes velhos do rock a fazer história – de novo.
São um dos nomes mais aguardados da noite: Metronomy regressam a Portugal e é o norte que os tão bem acolhe. Formais na apresentação chegam e são de poucas palavras e infelizmente de poucas músicas. Um dos concertos mais breves do palco principal e, por isso, podem ter perdido a hipótese de ser um dos mais memoráveis. Porque a ser verdade que as músicas de “The English Riviera”, “Nights Out” ou “Love Letters” nos acompanham no ouvido e na voz de forma quase natural, “Summer 08” também merece o seu destaque. Com uma presença em palco peculiar e caricata, percorrem o mais recente trabalho e dão um cheirinho dos singles mais conhecidos. Merecíamos mais, Metronomy!
Japandroids são efusivos e irreverentes. E mesmo que para muitos sejam desconhecidos, afiguram-se como um dos nomes-promessa deste festival. Fazem de “Celebration Rock” o mote para percorrer o mais recente trabalho: “Near to The Wild Heart of Life”. Influenciados por Green Day e The Clash reavivam essas lendas desde 2006, ano em que se juntaram, em Vancouver. E hoje, 11 anos depois, não desiludem, na primeira fila de um dos melhores concertos do 3º dia.
Black Angels são o único concerto do festival que começa com um atraso devido a uma avaria técnica do projector. Pedem desculpa e lamentam que não se possa assistir ao espectáculo visual mas depressa nos esquecemos disso.
No palco Pitchfork invertem o rock do dia para uma electrónica que inaugura a noite. Os Operators levam a palco canções como “Shape”, “Ancient”, True” e “Start Again”.
Thyco toca em White Lies e Explosions in The Sky. Pode é não tocar a todos a uma hora da noite em que os corpos já pedem mais. Mas o Palco Pitchfork está repleto e agora a música concentra-se todo no palco mais a norte. Com montagens surrealistas a decorar a tela, viajam entre referências visuais claramente indie e uma exploração música adequada ao tema. “Past is prologue” e “Awake” são trabalhos revisitados e muito aplaudidos, sendo dos mais conhecidos da banda. Memorável concerto para o género e para a intervenção da falha técnica que levou o baterista ao improviso.
E enquanto tudo isto acontece, Aphex Twin presenteia o público com um dos concertos mais non-sense e longos de todo o festival. Foi outro dos artistas que não permitiu fotografia, a par de Bon Iver, e por isso cumprimos a dita. Mas quem lá esteve também pouco viu porque se há festa que se faz de olhos fechados é a Rave psicadélica a que Aphex nos habituou. Ou tentou. Com um poderoso som e efeitos visuais, foi para o pódio dos festivaleiros: para uns o melhor concerto de todos, para outros claramente o pior. Seja qual for o espectro onde exista, podemos garantir que a techno de Aphex é única e irrepreensível.
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