Primavera Sound: 1ºlugar do pódio

A Primavera é quando o homem quiser, pensamos nós. Se assim fosse, havia sempre grandes palcos, o majestoso Parque da Cidade do Porto e um festival que arrisca seriamente a continuar no primeiro lugar do pódio nacional. (e que bem que lá fica!) O Primavera Sound não precisa de todas as competições, todos os prémios, todos os destaques porque, embora os tenha, é incomparável a qualquer outro festival em Portugal. E se o cartaz não conquista toda a gente porque falta uma pitada de sal, desenganem-se todos os insossos nesta receita musical: esta foi uma das melhores edições de sempre! Sim, admitimos que os grandes nomes foram roubados para outros festivais mas garantimo-vos que a grandeza está no ritmo que o concerto encerra e na grandiosidade dessa hora (quase) sempre mágica. E nesta estação que é primavera e lugar, também houve um comboio apinhado de nomes que nos aceleraram a engrenagem.

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Dia 1 // 9 de Junho
Não chegámos a tempo do cocktail de boas vindas, à moda portuguesa, dos Sensible Soccers nem conseguimos espreitar o não-estreante mas inspirador Jack Tatum, conhecimento por Wild Nothing. Mas estávamos de coração aberto para Deerhunter, o nosso primeiro concerto desta edição, em dia de primavera quase inverno e de chuva, a ameaçar regresso. Em concerto que começou em modo corridinho de verão, o quarteto de Atlanta decidiu dedicá-lo ao lamb que já é imagem de marca do festival. Com um saxofone a mapear os pontos de dança onde se enganou o frio e um baixo a delinear os movimentos do corpo, quase automático na condução, houve a voz limpa do Bradford num rock sujo – antónimos aceitáveis da canção. E dança-se um ska disfarçado de rock, com melodias a rasgar o padrão frenético da bateria. Malhas previsíveis que prometem um festival com boa música, pensamos nós. Peregrinação até ao próximo palco, o Super Bock, onde é no feminino que se surpreende o público, com Julia Holter. Com uma voz doce compos o Parque da Cidade e alinhou cada coisa fora do lugar. Uma melodia amena no aquecimento do festival das promessas, ou dos génios. E se se confirmou o adjectivo, assistimos a Sigur Ros, que em céu aberto não jogaram em casa mas calaram as vozes contrárias à certeza de que eles não eram coisa para festival. Afinal, até são! Da janela de onde começaram o concerto viram o mundo nesse estore corrido, horizontal a um público expectante. No pé axadrezado Orri Dýrason, os pratos foram choque feliz na bateria rigorosa dos islandeses, combinada com a voz aguda de Jónsi e na certeza de que o trio é nostalgia nas canções. O novo álbum confirma-se menos experimental mas não menos profundo. Ainda de coração cheio deixamo-nos seguir para Parquet Courts. Choque emocional depois da viagem com Sigur Ros, o público prova punk e rock, na oscilação musical da energia dançante. E mesmo com a chuva de volta, a banda de Brooklyn fez juz ao baptismo do festival e surpreendeu o público com um concerto aliciante. E se foi de energia que falámos, ela foi prelúdio a Animal Collective, experimentais surreais que pintam o palco com inspirações cubistas e futuristas, quais Amadeu de Sousa Cardoso em tela. Mas se no palco é cenário é feito com desenhos básicos e cores primárias, a banda de Baltimore contradiz-se na música: são tudo, menos básicos. Debaixo da chuva, confirmaram o sucesso dos pincéis com os quais gravaram “Painting With”. E já perto das 2h30 encerram o primeiro dia no Palco NOS, principal na denominação das hierarquias.

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Dia 2 // 10 de Junho
É dia de celebrar Portugal e lembrou-nos isso o feriado. Por isso mesmo, foram os portugueses White Haus que subiram ao palco Super Bock para inaugurar o segundo dia de festival. Há quem aproveite para a sesta, outros para sufocar a manga da camisola até onde o ombro deixar: haja sol para tanto bronze. Na vaidade por serem portuenses de gema, cantaram em inglês e, do Parque da Cidade, chegaram ao mundo inteiro. Num concerto em dois actos, vozes opostas no espectro musical combinaram com o beat electrónico e o sintetizador programado, qual compasso de ritmo. Durante a actuação o palco começou-se a compor mas ainda é agri-doce a mancha gráfica de público. Só quase uma hora depois, com Cass McCombs no palco NOS é que o recinto se compôs: a bateria e as teclas levaram-nos numa viagem ao passado, anos passado da produção musical conseguida. Voz doce e um fim de tarde calmo, no rigor de um alinhamento previsível e um concerto cumprido. Destroyer chegou a Portugal para apresentar “Poison Season”. Tanto no nome, como no álbum, não nos podemos deixar pelos malefícios da gramática porque tudo nele, é em bom e Dan Bejar veio confirmar essa certeza ao palco Super Bock do primavera. A oscilar entre o jazz e o rock, a música de destroyer é tão bonita quanto matematicamente rigorosa. Clássica, deixa o público pseudo-embalado num concerto que se finaliza antes de o corpo acompanhar a interrupção da música. E seguimos para o tão esperado Brian Wilson. Com os pet sounds a chegarem-nos por inteiro e com o carinho de um dos mais carismáticos e especiais produtores da história, a euforia interior da espera não se igualou no público: tão inertes quanto apáticos, a (não) merecer a presença de tão ilustre senhor, de tamanha qualidade de concerto! Com o já famoso gesto de mão, Brian falou-nos de Paul McCartney, prólogo de “God Only Knows”, canção favorita do Beatle. Na companhia de Al Jardine e Blondie Chaplin, o Parque da Cidade foi palco (literal) de um dos momentos mais nostálgicos e quentes do festival. Savages entraram tão de repente no pódio quanto a nossa introdução a este concerto. E nem o facto de se ter lesionado nas costas deixou Camille menos eléctrica, a confirmar um dos (nossos) concertos favoritos do Primavera Sound. A crítica confirma toda a devoção pelas Londrinas que têm na música a garra da vida e no álbum a sua certeza. “Adore Life” foi o álbum que apresentação, viajando também por clássicos do disco de estreia “Silence Yourself”. Depois de serem apenas promessas, passam ao pódio com lugar cativo. Polly Jean segue-se num cartaz de luxo e com o coração já meio a bambolear e traz com ela o revelador e interventivo The Hope Six Demolition Project. Depois de entrar numa marcha que, não sendo nupcial, seduziu o público, PJ Harvey confirmou o porquê de ser um dos headliners desta edição do festival. A voz de Polly levou-nos a passear numa história que tem tanto de celestial, até o saxofone ser alvorada do mundo e as letras nos terem levado para a realidade dos factos. Com “Dollar Dollar” ou “Ministry of Defense”, PJ relança o rock e reinventa-se para um tom mais eclético mas não com menos prestígio. É de tamanha “Human Kindness” que só o talento e a viagem por alguns dos clássicos nos podem fazer permanecer ali, a admirar tal feito. Para terminar a (nossa) noite, presenciamos o romance feito canção. Beach House trazem-nos o mágico transcendental debaixo de um manto estrelado, constelação do talento. Victoria e Alex pisaram de novo o palco do Primavera e agradeceram-nos com “Thank Your Lucky Stars”, albúm pop que lhes ilumina o firmamento. E para quem ainda teve fôlego, Roosevelt e Black Madonna seguiram-se, no palco Pitchfork.

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Dia 3 // 11 de Junho
“Não acredito que hoje já é o último dia” – ouve-se, do lugar onde estamos, sentados à espera do primeiro concerto. E não podemos concordar mais. O dia começou com os hermanos Manel. E se em Barcelona são vizinhos da fama, aqui moram ao fundo da rua: com um recinto quase vazio debitaram as suas músicas que, sendo de 2013, já aqui tinham sido ouvidas nesse mesmo ano. E para nos acalentar o travo, Linda Martini seguiram-se nesta disputa peninsular e, para nós, a vitória foi clara. Com Sirumba e o rock português como anfitrião, a banda confirmou o carinho do público. Amor combate para fazer do palco ringue, da voz intervenção, da música conquista. Não há nada que enganar. E para espreitar sangue novo seguimos para Algiers, uma das surpresas do festival. A navegar por mares caóticos e ondas que os levam do funk ao rock, passando pelo punk e pelo gospel, pegaram no leme e levaram o público numa viagem musicalmente atribulada mas num concerto incrivelmente surpreendente. E apesar de todas as críticas, os gestos frenéticos nas teclas de Ryan e a harmonia vocal de Franklin deixaram-nos com pena de abandonar o concerto a meio, para correr até ao Palco. e ver Neil Michael Hagerty & The Howling. Mas (também) valeu a pena, embora tenham dado apenas 35 minutos de concerto. De salientar a viagem do rock para o experimental e o salto da cadeira, viagens com diferentes durações mas grande impacto perante o público. Ou não necessariamente. E se do nome fazem autómato, também é (quase) instantâneo gostar-se deles. Os Autolux brindam-nos com o seu rock experimental, a tocar as profundezas disto a que chamamos interior e a confirmar que um bom concerto neste registo é viagem suficiente para nos por a sonhar. E quando a bateria nos levou para uma viagem rápida e frenética e já achamos que o melhorar é apertarmos o cinto, Carla Azar abranda e relembra-nos de quão bonita é a viagem, quão importante é aproveitá-la, e não chegar depressa ao destino. Partimos da beleza da descoberta para a beleza do free jazz e para um John Stanier eufórico, com a imagem de marca dos pratos de choque a uma distância que enaltece sempre a celebração. São os Battles, no palco Super Bock, a mostrar-nos de como todos os géneros musicais enaltecem este festival e só a boa música cabe cá dentro. Fugimos a meio do concerto para presenciar um dos concertos com um público mais composto e mais reactivo dos três dias de festival: Car Seat Headrest confirmam isso e dizem-nos que “In Barcelona, the crowd was twice as big… buy you are twice as loud!” De Seatle, para nos dar a provar o rock que agora é indie mas que cabe perfeitamente nos corações de saudade pela assinatura da cidade, Will Toledo mostrou-nos que não é um Teen of Denial. É a confirmação de um caminho ascendente que embala a multidão e leva o público ao rubro. “Are you drunk or just happy?” pergunta Will. E a certeza está na resposta fácil, por estarmos perante um dos melhores concertos do Primavera, no palco Pitchfork. E se premiamos a utopia com a presença de marcos históricos, a banda que se seguiu viajou de mais perto e mostrau-nos que aterrar nesta primavera da nave espacial é tão pouco redutor que merece um prolongamento: os Air chegam do espaço e, vestidos de branco, saúdam-nos quase de imediato com um robótico obrigado. Celestiais e imponentes souberam como levar ao rubro uma multidão que, embora nem sempre calada, estava atenta a cada nota, compassos de história que oscilaram entre o mais recente trabalho dos franceses. Da exuberância característica de Versalhes, brindaram-nos com o pop elegante e electrónico, numa combinação de vinte anos de música e no crescimento de uma das bandas que menos telemóveis ergueu durante o concerto (estão de parabéns!). Em noite que enalteceu o instrumental, seguimos para Explosions in the Sky, um dos concertos do pódio que vimos (praticamente) de olhos fechados. Porque se o talento é a música, a introspecção é a certeza. Com um público ao rubro e hipnotizado, a luz que desceu do palco e percorreu pontualmente a multidão, deixou antever a magia que cobriu de ouro o último concerto do palco Super Bock. Com um rock transcendental e a contemporaneidade nos padrões de guitarra, os americanos do post rock fascinaram o fim de noite, princípio de tempo nenhum: foi assim que nos sentimos, levados para lugar nenhum, a flutuar no universo de canções tão sedutoras quanto íntimas. E, claro está, nesta receita de hipnotismo fomos levamos para Ty Segall nos braços do piloto automático e não estávamos preparados para a dose de energia que o jovem e talentoso cantor tinha para nos ofertar. O certo é que nos acordou do transe. E não podia ter feito melhor! Embora os últimos albúns (e concertos) tenham sido mais aprazíveis (o rock sujo do Ty, que tão bem lhe assenta) o americano presenteou o público com um registo mais claro mas não menos brando. Com um palco que oscilava entre o vermelho Lynchiano e a escuridão onde se escondiam enquanto a banda tocava, a ironia e o pacifismo interventivo de Ty fizeram deste um dos melhores concertos do Primavera. (a confirmar que o terceiro dia teve um alinhamento de luxo!) E se foi para o Rock que nos abriu o apetite, foi para “Candy” que jurou fidelidade e para o “Breakfast” que exigiu rotina. Apresentou os membros da banda como Uncle Bob, the guy I found in Indiana Jones Ride of Disneyland e até mesmo Bruce Springsteen e deixou o público animado, ainda mais quando se despediu com L.A Woman, dos Doors.

Para acabar em grande. E para nos despedirmos desta edição de coração ainda mais completo. O Primavera Sound está de volta em 2017, dias 8, 9 e 10 de Junho, naquela que será a sexta edição do festival portuense.

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Photo By: AnaGuedes

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