Samuel Úria: a melhor carga que um ombro pode receber

Volta o mestre Samuel Úria. Com a “carga de ombro” e a gramática desenvolta, sem remendos. Mas também com as suas falácias. Começa por dizer que pode “ser músico ligeiro, mas dormidor pesado”. Mas de ligeiro as horas seguintes não tiveram nada. Na maturidade das palavras brinda o público e com essa herança exibe um robe longo, traje exuberante a combinar com as novas canções. Adultas, reais, cantadas na voz do artista que volta ao Porto, para ser aliado das surpresas.

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A “dar corda”, começa a rasgar a sala com o primeiro single do novo albúm, prelúdio às quase duas horas de viagem entre presente e passado. E se há frieza numa sala ainda envergonhada, Samuel Úria enaltece as brasas, espalha-as e deixa-as ainda mais quentes, nas boas vindas a um coro, que começa a acompanhar a marcha no suporte ao “aeromoço”. Cartão de embarque para o primeiro amor, nesta música em que Úria é comandante, ao público só resta apertar os cintos.

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“Nem lhe tocava” é analepse de 2009 e é homenagem aos que ficaram sentados, a apreciar esta maratona de canções, obras literárias que derramam tanto de música, quanto da poesia cantada. A sensualidade da linha melódica através da qual o público se apaixonou por Úria disfarça-se de passado quando pede a que todos dancem, ao som de uma “Repressão” que é mecânica métrica de um Álvaro de Campos compositor, acompanhada por uma bateria frenética, qual onomatopeia moderna. E se a moda é causa num refrão, ao ombro entrega-se a carga, apoteose na sala que recebe este hino mais recente do cantor.

“Vem por mim” e “Graça Comum” são a avalanche do mais recente álbum, que nesse novo mundo se descobre, acompanhado por Miguel Ferreira. E se os convidados se juntam, é por Manel Cruz, que, em seguida se chama, porque se foi no mar que o “Cabo do medo” se dobrou, é fora dele que o “Lenço Enxuto” junta os letristas mais prog-rock da era pós PREC. Nesta revolução musical, “Palavra Impasse”, “É Preciso Que Eu Diminua” e “Não Arrastes o Meu Caixão” são contínuas nos arranjos que dão calor à noite onde uma sala cheia dança de olhos semi-fechados.

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A energia cinética dos lábios é mais clara nas músicas antigas e se o concerto serve de apresentação, quem sobe ao palco para interpretar “Barbarella e Barba Rala” e “Ei-lo” dispensa apresentações. Ana Bacalhau é euforia nessas duas canções e a lírica do Samuel continua a fazer sentido, na vastidão de reportório onde, logo após, se seguem “Não Ouviste Nada” e “O Diabo”.

Primeiro encore da noite. A pausa serve para aplausos que enchem a sala. Em dia de temporal na cidade Invicta, é à chuva púrpura que Samuel Úria se refere quando volta. “Essa Voz” e “Teimoso” são intervalos à homenagem a Prince. “Forasteiro” toca-se quase de saída para um segundo encore que traz com ele a “Lamentação” de a Casa da Música estar perante a última canção da noite. Suspenso o apreço, a banda desfila na voz “Carga de Ombro” enquanto palmilha a sala e em acústico a abraça com esta canção final.

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Luz por inteiro e rostos iluminados, a ordem de saída está dada. Mas a carga promete e o Porto pede Samuel Úria, outra vez, em breve. Duas horas que parecem instantes confirmam a genialidade do lírico. E confirma-se como se começou: volta o mestre Samuel, qual “aperaltado alternativo a aspirar o Pop”.

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