Esgotar uma Primavera inteira entre música e pódio

Segundo dia é dia de casa cheia e desde meados de Maio que os bilhetes estão esgotados. Quando chegamos ao recinto, apercebemo-nos de gente que ergue cartazes a pedir bilhetes diários. Compram-nos, ao preço que for preciso. Todos querem ver Bon Iver.

A abertura do segundo dia fica a cargo de First Breath After Coma que durante o último ano têm sido destaque no panorama da música nacional. Inspirados, não só no nome, em Explosions in the Sky, recriam harmonias de fantasia que percorremos de olhos fechados. Há um post-rock exploratório na banda Leiriense que se estreou com “The Misadventures of Anthony Knivet” e evoluiu para um “Drifter” mais maduro e exploratório. E é nessa presença esdrúxula que a banda salta para os melhores discos, pela Associação de Editores Independentes e, agora, para o Primavera. Chamam Luís Sepulveda em inspiração e Noiserv em pessoa e as referências não acabam quando as estendem a André Barros e à Omnichord Records. As batalhas entre os barcos e as baleias erguem-se e a banda pede para que se fechem os olhos e sigam com eles. Porque preferem tocar mais e falar menos. E não há melhor forma de confirmar a genialidade.

Jeremy Jay fazem a estreia do Palco Ponto que o Porto ganhou nesta corrida, à ATP (All Tomorrow Parties). Com um registo intimista e um fim de tarde acolhedor, recebem um público ainda envergonhado debaixo do sol quente. “Dream Diary” e “Abandoned Apartments” são albúms revisitados durante os 50 minutos de concerto. Da nostalgia dos títulos ao pop explorado com a mesma linha, a fórmula repete-se com este “Airwalker” americano.

São os Pond que dão as boas vindas ao palco NOS no segundo dia de festival. A banda, que já repete o feito no festival (passa do palco ATP para o principal) é recebida sob a esquizofrenia de Nick Allbrook (integrante, tal como grande o resto da banda, de Tame Impala). Neste mundo utópico sob o qual reside Nick, a banda acompanha-o no rock psicadélico que traz ao Parque da Cidade o primeiro grande concerto do dia. Sob o mote de tocarem sem fórmulas, sem cunhos e de forma livre, os Pond formam-se nesta união que se mostra despreocupada mas que combina na perfeição com os acordes rock rasgados no Porto. “Psychedelic Mango” e “Corridors of Blissterday” enchem o palco NOS para confirmar que a evolução da destas “tartaruga gigantes” é evidente.

Whitney é uma montra de instrumentos e uma fórmula certa para que o indie chegue ao lugar certo do festival. Com influências claras de Mac DeMarco trazem o psicadelismo aos olhos fechados da música alternativa e abrem caminho ao género, no Primavera. Há um baterista vocalista, trompete e teclados. Pela terceira vez em Portugal, o quinteto de Chicago é “Light Upon the Lake” e o alinhamento é uma corrida vagarosa, contrária ao eufemismo do calor musical.

O romantismo e os slows são o fim-de-tarde desta sexta-feira e o clima continua aceso nesse tom com Angel Olsen a subir ao Palco NOS. O Folk-country foi um dos grandes destaques desta edição do Primavera mas só a Olsen coube o feito de o fazer no palco principal. Mais que merecido. Angel é homónima ao nome que lhe cabe na voz e reaviva Joplin e um sem fim de referências que carimbam o concerto como único e indecifrável. A sedução da voz estende-se ao olhar e os gestos meigos são a ternura feita canção. A confirmar que está “High and Wild”, a cantora oferece ao público um momento único. E à memória um concerto para guardar.

Nikki Lane, no palco Pitchfork, enquadra-se no género do dia. De chapéu na cabeça e guitarra ao peito faz-nos lembrar a inocência dos primórdios de Brandi Carlile. O country folk assenta-lhe na forma certa das cordas vocais e a banda que a acompanha alinha no rock para uma mistura de ingredientes que fazem deste primeiro concerto em Portugal um marco para a artista. E para o público, que tem agora oportunidade de a conhecer de perto.
Bon Iver e Swans competem nas horas mas não na quantidade de fãs que os espera. Os primeiros, com uma plateia claramente maior, peca por defeito porque é a banda de Michael Gira que leva a taça para os mais eufóricos e dedicados. Com Iver, cabeça de cartaz e motivo da enchente do dia, a maré suavizou para desaguar ali, em matosinhos, numa noite calma que não surpreendeu. Com Swans, a magia estendeu-se para lá do melhor do rock e do blues, da história, e destes anos 70 convertidos em ditongos enormes. Com Bon Iver, a fórmula foi percorrer o mais recente trabalho e, depois, para alívio de todos os que compraram bilhete, os clássicos. E ainda se ouve “ainda bem que tocaram Skinny Love, é a única que conheço”. Desta plateia (a mais presunçosa que o Primavera recebeu) passamos para o afecto de um multidão a mergulhar em Swans e da música a ser verdadeira. Não que com Bon Iver não seja, mas o que ganhamos em ouvi-lo perdemos com o redor.
(Bon Iver não autorizou fotografias)

Enquanto esperamos pelo próximo concerto ouvimos, atrás de nós, colado às grades “Are you by yourself? – Yes! – You should smile more. You are very beautiful when you’re smiling… but please don’t blush”. O romantismo inebriado que Bon Iver perpetuou é quebrado pela entrada de Skepta e a majestosa introdução ao anfiteatro do palco Super Bock. “That’s not me” é entoado em palco e repetido vezes sem conta entre braços no ar de uma plateia jovem e irreverente que não tem energia em falta. Acompanha Skepta na tarefa de um dos concertos de grime e hip-hop com mais potência do festival. O músico, que diz ser mais activista do que cantor, perde-se entre os ditongos de “Man” e “Shutdown”, sem fazer da última homónimo à canção. E o festival recebe-o inteiro num palco que é pequeno para tanto talento.

Ainda o festival não está dado por terminado e já temos um vencedor: King Gizzard & The Lizard Wizard seguem para o pódio, sem passar fronteiras nem portagens. Um dos melhores concertos do festival é a garantia que se vive no palco ponto, longe dos holofotes das coroas de flores e das malas que escondem toda a exaustiva tarefa de recolher brindes pelo festival. A banda, que vem da austrália e enche o palco inteiro, espera até que haja técnico para o P.A. e os gritos multiplicam-se na espera. Com duas baterias, os indomáveis sete em palco transformam o rock psicadélico numa espécie de viagem alucinada e inebriante. Sem advérbios que façam o modo, “Flying Microtonal Banana” é alimento que se infiltra no corpo e obriga a que essa fonte de energia continue a ser alimentada. “Rattlesnake” joga em casa na euforia do acompanhamento e de uma síncope ordenada para acompanhar esta malha. A forma como nos transportam pelo alinhamento é como uma viagem atribulada onde os borboletas se assomam da barriga a cada curva, cada tropeçar, mas em bom. E é nisso que reside a forma suja e psicadélica com a qual coroam a música e a multidão. Voltem depressa!

Nicolas Jaar promete trazer a electrónica em falsete e as honras da casa em forma de encerramento do palco NOS para sexta-feira. Depois da debandada para a zona de restauração e do descanso pós-Iver os que ainda se mantêm no recinto vibram com Jaar. O músico, de apenas 27 anos, transporta o público para uma viagem sonhadora e melancólica, entre beats que descobre nas teclas e luzes que se acendem, pautadas na escuridão da descoberta. Cumpre-se a fórmula de Jaar e a adoração por portugal é mútua. Até porque encontrámos no público quem, hoje, tenha vindo só por ele.

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